CIDADE
19/12/2022 às 21:33 por Patrick Siede


Por mês, 33 crianças e adolescentes são vítimas de violência em Santo Ângelo

Por mês, 33 crianças e adolescentes são vítimas de violência em Santo Ângelo

A Delegacia de Polícia de Proteção à Grupos Vulneráveis (DPGV) registrou até novembro de 2022, 364 crianças e adolescentes vítimas de algum tipo de crime no município de Santo Ângelo. Conforme levantamento realizado pela DPGV, o número de crimes representa a média de 33 casos por mês, ou seja, mais de um caso por dia.

A contabilização inclui 45 tipos de violência contra menores. Os com maior índice são o de ameaça, lesão corporal, estupro de vulnerável, maus tratos, assédio, injúria, desaparecimento, lesão corporal por direção de veículo, importunação sexual, estupro e homicídio doloso tentado.

Quanto às medidas tomadas, a delegada Luciana Cunha, titular da DPGV, salienta que quando há conhecimento sobre o cometimento de violência ou da suspeita, é instaurado procedimento policial representado por medidas de proteção, passando a informar o Ministério Público (MP) e o Conselho Tutelar. “A rede toda acaba sendo acionada no caso de violência contra criança e adolescente, podendo haver intervenção do CRAS, CREAS, CAPSia, dependendo do caso. O trabalho de investigação é repressivo, mas quando se trata de criança e adolescentes, além de focar na produção de provas para responsabilização do autor do crime, temos o olhar também voltado para a vítima no sentido de acolhimento, desenvolvimento e encaminhamento de ações que visam protegê-la e ajudá- -la para amenizar os traumas causados pela ação criminosa”, destaca.

A Polícia Civil ainda desenvolve ações preventivas de violência contra crianças e adolescentes por meio do Programa “Papo de Responsa”, voltado a alunos de escolas públicas e privadas. “O Papo desenvolve- -se em inúmeras etapas, encontro com direção e coordenação escolar; encontro com professores; encontro com os alunos, quando são abordados temos de interesse dos mesmos, dentre eles as violências das quais podem ser vítimas; encontro com familiares dos alunos, e fi nalmente, um retorno à escola, para um novo Papo com alunos, tendo eles como protagonistas”, aponta.

NATURALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA E SUAS TRANSMISSÕES A PARTIR DAS GERAÇÕES

A família é o primeiro contato social da pessoa, e nela podem ocorrer situações de violência intrafamiliar, que podem acarretar violência transgeracional a partir dos processos naturalizados e reproduzidos perante as famílias.

Para entender esse processo e as suas consequências, a reportagem conversou com a psicóloga Tatiana Raquel Hunsper, especialista em política e intervenção em violência intrafamiliar pela Universidade Federal do Pampa, que salienta que as vivências de violência naturalizadas pela família fazem com que exista a reprodução da naturalização da violência física e psicológica através da desigualdade de gênero. “Desta forma, é evidente que o patriarcado e a violência são aprendidos e naturalizados nas relações primárias estabelecidas na família, colaborando para sua reprodução em âmbito social. Os conteúdos psíquicos dos fi lhos estarão marcados pelo funcionamento psíquico dos pais, avós e ascendentes que possam nem ter conhecido. A família é o espaço de transmissão geracional, no qual ocorrem vários processos de identifi cações, as situações de violência respingam dentro e fora da família”, comenta.

Segundo a psicóloga, a transgeracionalidade da violência intrafamiliar se baseia na repetição de fatores familiares, tornando a violência como algo natural ou pertencente a essa condição de família. “Num ambiente em que o sujeito cresce no meio da destruição dos direitos, presenciando ou vivenciando a violência, alguns indivíduos entendem que essa é a maneira de se relacionar com outro, e por si só de amar, se tendo estranheza quando se depara com situações adversas das rotineiras. A partir da análise do que é transmitido para o sujeito, desde o início de sua aprendizagem, até fatores do inconsciente, quando a transmissão é relacionada a violência, ela está presente em diversas facetas do sujeito, sendo naturalizada, seu único meio de visão. A reprodução da violência se torna algo transgeracional, sendo algo transmitido entre as gerações. Lembrando que essas reproduções são subjetivadas conscientemente e inconscientemente, além de se agregar a mitos e a crenças. A forma do sujeito romper esse ciclo de violência aprendido é encontrar outras formas de aprendizagem”, aponta.

Ainda, a profi ssional, destaca que é imensurável os danos que um sujeito pode vivenciar a partir de um trauma na sua psique. “Cada pessoa é única e pode internalizar o trauma vivido de diversas maneiras e transmiti-la por muitas gerações. Enquanto não curamos nossas feridas, vamos repetindo os padrões que conhecemos, mesmo que eles sejam negativos ou nos causem dor e sofrimento”, finaliza.

Patrick Siede | Redação do Jornal A Tribuna Regional 

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