NACIONAL
09/01/2026 às 14:56 por Redação


Trump reacende Doutrina Monroe, fragiliza organismos internacionais e impõe desafios ao Brasil, avalia ex-embaixador Rubens Barbosa

Trump reacende Doutrina Monroe, fragiliza organismos internacionais e impõe desafios ao Brasil, avalia ex-embaixador Rubens Barbosa
Foto: Reprodução

As recentes ações do governo dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump reacenderam tensões geopolíticas na América Latina, colocaram em xeque o multilateralismo e ampliaram os desafios diplomáticos e econômicos para países como o Brasil. A avaliação é do diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e no Reino Unido, em entrevista ao programa Aldeia Global, da Rádio Sepé AM 540. 

Segundo Barbosa, a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças norte-americanas simboliza o retorno explícito da Doutrina Monroe — conceito do século XIX que defende a supremacia dos Estados Unidos sobre o continente americano. “O Direito Internacional, para Trump, é aquilo que interessa aos Estados Unidos. Há uma imprevisibilidade total nas relações internacionais”, afirmou.

Impactos para o Brasil 

Embora descarte uma intervenção direta dos Estados Unidos no Brasil, o ex-embaixador avalia que o país não está imune a pressões indiretas, especialmente no ano eleitoral. “A interferência pode ocorrer por meio das redes sociais, da mídia ou de promessas seletivas a determinados grupos políticos”, analisou. Para ele, esse tipo de atuação já faz parte da estratégia do governo Trump na região.

Barbosa destacou ainda que a popularidade do presidente norte-americano vem caindo internamente, pressionada pelo aumento do custo de vida e pela inflação, o que pode limitar suas ações externas. Mesmo assim, lembrou que Trump mantém apoio significativo de cerca de metade da população dos Estados Unidos.

Comércio, tarifas e vulnerabilidade brasileira

No campo econômico, Rubens Barbosa alertou para o impasse nas negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Conforme ele, cerca de 22% dos produtos brasileiros exportados ao mercado norte-americano seguem enfrentando tarifas que chegam a 50%. “A ausência de uma data para negociação representa, na prática, uma punição ao Brasil”, avaliou.

O diplomata ressaltou que as poucas concessões obtidas pelo Brasil até agora não foram fruto de negociação bilateral, mas de pressões internas de empresas e consumidores norte-americanos, afetados pela alta dos preços.

Ele também chamou atenção para a excessiva dependência brasileira da exportação de commodities, especialmente para a China. “Não existe exemplo de país grande que cresça sustentavelmente apenas exportando produtos agrícolas”, afirmou, defendendo uma estratégia de diversificação de mercados e fortalecimento da indústria nacional.

Acordo Mercosul

Como contraponto ao cenário de instabilidade com os Estados Unidos, Barbosa destacou como positiva a decisão da União Europeia de aprovar a assinatura do acordo com o Mercosul, que deve ser formalizada em Assunção, no Paraguai. Segundo ele, a motivação foi mais geopolítica do que comercial, diante da disputa global por influência.

Apesar disso, o ex-embaixador alertou que o acordo escancara um problema estrutural do Brasil: a baixa competitividade industrial. “Em pouco tempo, 90% dos produtos europeus entrarão no Brasil com tarifa zero. Sem reduzir o Custo Brasil e modernizar a indústria, o país corre o risco de perder espaço”, afirmou.

Multilateralismo em crise

Rubens Barbosa foi categórico ao avaliar o enfraquecimento de organismos internacionais como a ONU e a OMC. Segundo ele, o anúncio dos Estados Unidos de deixar dezenas de organizações multilaterais representa o “paroxismo” do esvaziamento dessas instituições. “Hoje prevalece a lei do mais forte. O multilateralismo está profundamente enfraquecido”, disse.

Na avaliação do diplomata, o mundo caminha para acordos diretos entre grandes potências, como Estados Unidos, China e Rússia, com divisão de áreas de influência. Esse cenário, segundo ele, pode afetar indiretamente o Brasil, sobretudo se a China passar a priorizar compras agrícolas dos Estados Unidos para equilibrar sua balança comercial.

“Teremos muitas emoções ainda este ano. O Brasil precisa de planejamento, estratégia de longo prazo e aumento da competitividade para não ser apenas um espectador desse novo rearranjo global”, concluiu.

Redação do Grupo Sepé 


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