
A instabilidade geopolítica no Oriente Médio atingiu um ponto crítico, gerando ondas de choque que já impactam a economia global e o mercado brasileiro de combustíveis. Segundo João Dalaqua, presidente do Sulpetro (Sindicato de comércio varejista de combustíveis do RS), a escalada das tensões internacionais, especialmente a possibilidade de fechamento do Estreito de Ormuz — por onde circula 20% do petróleo mundial —, cria um cenário de incertezas que não deve arrefecer no curto prazo.
O reflexo mais imediato dessa crise é a disparada na cotação do barril de petróleo, que saltou de aproximadamente 60 dólares para mais de 100 dólares em pouco tempo.
Para o Brasil, a situação é paradoxal: embora o país seja um grande produtor e exportador de óleo bruto, ainda depende significativamente da importação de derivados, especialmente o diesel. Como as refinarias nacionais não estão totalmente adaptadas para processar todo o tipo de petróleo extraído aqui, o país fica vulnerável às flutuações e à disponibilidade do mercado externo.
Dalaqua alerta que a crise já está instalada no Brasil através da Petrobras, que atua como principal fornecedora. A estatal tem segurado repasses imediatos de preço, o que, embora possa parecer prudente politicamente para conter a inflação, acaba inibindo importações privadas. Sem o alinhamento de preços internacionais, importadores evitam trazer o produto para não vender abaixo do custo, resultando em restrições de oferta.
No Rio Grande do Sul, esse problema já é uma realidade: produtores rurais enfrentam dificuldades para obter diesel em plena safra devido a cotas impostas nas refinarias.
O cenário internacional é descrito como "bruto" e instável, com o mercado de óleo sendo historicamente o epicentro de grandes conflitos mundiais.
A recomendação para o consumidor brasileiro é de racionalidade no consumo, enquanto as autoridades buscam equacionar a política de preços para evitar um colapso no abastecimento nacional.
Outros elementos
Embora o Brasil tenha um dos maiores índices de mistura de biocombustíveis do mundo, o aumento da participação do biodiesel no diesel (atualmente em 15%) não é visto como uma solução imediata para a crise. A transição exige testes de campo e adaptações em motores que impedem uma mudança súbita.
Para além disso, o preço final na bomba é fortemente impactado por impostos. O ICMS representa, em média, 24% do valor, somando-se ao PIS e Cofins. No caso da gasolina, tributos e misturas de etanol podem compor uma fatia maior do custo do que a própria margem do revendedor.
As transformações recentes mostram, também, que o setor de revenda passa por uma concentração, com grandes redes ganhando espaço enquanto pequenos postos enfrentam margens cada vez mais apertadas. A margem bruta da revenda, que antes era majoritária na relação com as distribuidoras, vem sofrendo reduções sistemáticas.
Outro desafio do varejo de combustíveis é uma mudança cultural, que afetou margens das lojas de conveniência. O período pós-pandemia alterou o comportamento de consumo, com o crescimento do delivery e a diminuição do movimento noturno nas lojas de conveniência, forçando os empresários a buscarem novas formas de rentabilidade.
Redação Grupo Sepé