GERAL
21/04/2026 às 10:41 por Matheus Teixeira


Crise do petróleo amplia interesse pelo etanol

Crise do petróleo amplia interesse pelo etanol
Fonte: Jonathan Heckler / Agencia RBS

A alta no preço dos combustíveis — gasolina, querosene e óleo diesel — causada pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã recolocou o etanol no radar do consumidor brasileiro. Enquanto gasolina e diesel sobem, o etanol hidratado mantém valores mais estáveis e ganha competitividade. No Rio Grande do Sul, porém, entraves históricos limitam esse benefício.

O Brasil deve registrar um crescimento na produção de etanol, tanto de cana-de-açúcar como de milho, chegando a cerca de 43 bilhões de litros neste ano. Esse montante representa uma expansão de 10,71% ante o ano passado. Os dados são da consultoria  Safras & Mercado e levam em conta tanto o etanol hidratado quanto o anidro.

O analista e consultor de açúcar e etanol da Safras & Mercado, Maurício Muruci, afirma que, com a perspectiva de demanda maior, a oferta de etanol também tende a crescer. O especialista destaca que o conflito no Oriente Médio acelerou esse movimento de mercado:

— As usinas já planejam um mix de produção mais elevado para o etanol do que para o açúcar na safra nova do centro-sul do Brasil, de 2026/2027, que começou agora em abril. A guerra mexeu nesse cenário. Antes da guerra, as usinas já planejavam produzir mais etanol do que açúcar, porque o etanol estava com níveis de remuneração melhores frente ao açúcar. O conflito intensificou esse cenário de vantagem.

Os tipos de etanol

  • etanol anidro: componente usado como mistura na formação da gasolina tipo C.
  • etanol hidratado: comercializado em todo o país como um combustível final. Aquele que está na bomba dos postos.

Competitividade

Para ser competitivo, a regra prática geral aponta que o etanol precisa custar até 70% do preço da gasolina. Recentemente, esse cenário foi observado em algumas regiões do país.

Levantamento da ANP

No Brasil, a pressão sobre o petróleo elevou os preços dos combustíveis mais utilizados, de forma direta ou indireta. A gasolina comum, por exemplo, apresentou preço médio de R$ 6,77 nos postos na semana de 5 a 11 de abril, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Isso representa alta de 7,80% em relação à semana de 22 a 28 de fevereiro, período que coincide com o início do conflito. Já o etanol hidratado chegou aos R$ 4,69 na semana passada, avanço de 1,73% no período, apresentando certa estabilidade. 

Considerando esses dados mais recentes da ANP, o preço médio do etanol hidratado no país é 69,27% do valor da gasolina comum. Portanto, apresenta competitividade. O levantamento era o mais recente até o meio da tarde de segunda-feira (20).

Isso ocorre porque a gasolina subiu mais no período, aumentando a diferença entre os dois combustíveis na bomba. 

Mas essa relação não é a mesma em todos os Estados. Em unidades da federação com pouca produção de etanol, como o Rio Grande do Sul, é necessário importar o produto de outras regiões. Os custos de transporte entram na composição do preço final, tornando o etanol mais caro. Por exemplo, no Rio Grande do Sul, os últimos dados da ANP apontam que o etanol estava representando 79% do preço da gasolina comum. Ou seja, sem competitividade. 

O analista Maurício Muruci afirma que, historicamente, o etanol hidratado não é competitivo no Rio Grande do Sul em razão da falta de usinas para produção.

— A guerra por si só não tem a capacidade de reverter um cenário de 20 anos de falta de competitividade do etanol hidratado frente à gasolina no Rio Grande do Sul. Para ser competitivo, o produto precisa custar até 70% do preço da gasolina, e a média histórica no Estado varia entre 80% e 85%.

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes no Rio Grande do Sul (Sulpetro), Fabricio Severo Braz, também cita esse histórico de falta de atratividade para o etanol no Estado.

— Já houve iniciativas no passado para tentar uma produção a partir da cana-de-açúcar, mas não tivemos êxito. Por esse motivo, a gente tem que trazer de outros Estados esse produto, que muitas vezes não se torna atrativo em função do preço que ele chega até nós — resume.

O executivo afirma que, no começo do conflito, alguns proprietários de postos chegaram a aumentar o volume de compras de etanol com receio de algum descompasso no fornecimento de gasolina. No entanto, foi um movimento pontual de precaução, e não resultado de maior consumo do biocombustível.

Braz também destaca que, além da questão envolvendo a guerra, o Estado chegou a apresentar alguns momentos de aumento no consumo de etanol em um passado recente, mas não em patamar suficiente para alavancar o setor.

Percepção de tanque cheio

Mesmo com procura menor do que a de outros combustíveis, diversos postos oferecem o etanol em Porto Alegre.

A bióloga Rafaela Ciotta, 35 anos, usa o produto eventualmente. Ciente das variações de preço nos locais onde abastece, na Capital e na Região Metropolitana, Rafaela afirma que decide pelo etanol em algumas ocasiões, observando o preço e a percepção de maior volume no tanque:

— Na verdade, o meu abastecimento com etanol não é frequente. É bem raro, na verdade. Onde eu vejo que está mais em conta (valor), abasteço. Eu boto mais mesmo é a gasolina porque ela acaba rendendo mais no veículo pela questão da autonomia. Mas, em momentos de alta, acabo procurando o etanol mesmo, que acaba ajudando quando preciso que faça um volume no tanque.

Sócio-proprietário de um posto de combustíveis na Avenida Ipiranga, Antonio Marchetti, 80 anos, afirma que a saída do etanol em seu estabelecimento não sofreu alteração após a guerra. Em função disso, o produto segue representando apenas cerca de 10% da cartela de combustíveis que oferece no local.

— É o combustível que menos sai no posto. O preço do etanol ainda não apresenta vantagem sobre a gasolina. Não tá ainda tão competitivo. A gente não tem uma produção forte aqui no Estado, então, o nosso custo para ter o produto ainda é muito alto. E o consumidor sabe dessa falta de competitividade e não escolhe o etanol — resume Marchetti.

Oportunidade

Se, no curto prazo, não há perspectiva de melhora para a competitividade do etanol hidratado no Rio Grande do Sul, o cenário é diferente para o etanol anidro. Como o governo federal deve aumentar o percentual de etanol anidro na gasolina, o Estado pode ganhar impulso na produção desse produto.

Especialistas entendem que a instalação de uma usina de etanol da Be8, em Passo Fundo, programada para o fim deste ano, pode favorecer esse mercado no Estado. Principalmente na questão do etanol anidro. 

— Com a guerra, o governo tende a elevar a mistura do anidro na gasolina, de 30% para 32%. E cada ponto percentual representa 800 milhões de litros a mais no acumulado de 12 meses de demanda de anidro — destaca Muruci.

O economista-chefe da consultoria ES Petro, Edson Silva, afirma que a atual crise do petróleo abre uma oportunidade para discutir políticas que incentivem a produção de etanol no Estado. Além do ganho com descarbonização e em segurança energética, esse movimento cria um amortecedor para momentos de volatilidade na cadeia dos combustíveis, segundo Silva:

— Essa crise do petróleo em todo o mundo está chamando a atenção de muitos países para a prioridade que precisa ser dada à produção de biocombustível. Para o Estado em particular, espero que as autoridades, o próprio empresariado tenha olhos abertos para enxergar esta oportunidade que a crise está nos proporcionando, voltando os olhos para a produção de etanol — conclui.

Fonte: Anderson Aires/GZH


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