GERAL
21/04/2026 às 10:54 por Ricardo Bolson


Coordenadoria de Educação projeta novo prédio para escola estadual na aldeia indígena em Santo Ângelo

Coordenadoria de Educação projeta novo prédio para escola estadual na aldeia indígena em Santo Ângelo

A educação escolar indígena na região das Missões está prestes a passar por transformações significativas. Em entrevista à Rádio Sepé, a coordenadora da 14ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Rosa Maria de Souza, detalhou os avanços nos projetos de construção de novas sedes para comunidades que hoje operam em condições improvisadas. O plano integra um esforço do Governo do Rio Grande do Sul que prevê 12 novas escolas indígenas no estado, entre elas a Escola Estadual Os 7 Tava Mirim, na Aldeia Tekoá Pyau, no distrito da Ressaca da Buriti, em Santo Ângelo.

O contexto é de pressão crescente. Um diagnóstico da Emater/RS de 2025 revelou que quase 30% das aldeias gaúchas não têm acesso à educação indígena e que 75% das escolas existentes funcionam em prédios improvisados. Também em 2025, o Ministério Público Federal ajuizou ações civis públicas contra o estado para garantir a construção de escolas em aldeias Mbyá-Guarani na região metropolitana. No plano estadual, entre janeiro e março de 2026, R$ 16,7 milhões dos R$ 29,4 milhões investidos em obras concluídas na rede estadual beneficiaram estabelecimentos indígenas o que evidencia uma reorientação de prioridades. No âmbito federal, o Novo PAC autorizou a construção de 117 escolas indígenas em 17 estados, com investimento de R$ 785 milhões, sendo o Rio Grande do Sul um dos contemplados.

Infraestrutura moderna e participação comunitária

Atualmente, a escola na Ressaca da Buriti funciona de forma provisória no núcleo comunitário da aldeia. Segundo Rosa de Souza, o projeto para a nova sede já está em fase final e seguiu um modelo de construção participativa. Em reuniões técnicas, a comunidade Guarani pôde escolher entre diferentes tipologias arquitetônicas, optando pelo modelo que melhor se adapta às suas necessidades de convivência.

"Eles escolheram a tipologia B, onde esse local de convivência é na área interna. Ficou registrado também que a equipe técnica iria contemplar um pedido para que a aldeia possa expor seus produtos", explicou a coordenadora.

A licitação deve ocorrer até julho de 2026. Embora o prédio físico ainda esteja no papel, Rosa Maria destacou que a escola já conta com recursos tecnológicos, incluindo internet via Starlink e Chromebooks para os estudantes, garantindo acesso à informação mesmo no espaço temporário.

Preservação da identidade e da língua materna

Um dos pontos centrais, conforme a coordenadora, é a diferenciação necessária entre a escola indígena e a escola regular urbana. Ela enfatizou que o objetivo não é apenas transmitir conteúdos curriculares, mas preservar o modo de vida e a cultura originária.

A ênfase na língua materna e a contratação preferencial de professores indígenas são pilares desse modelo pedagógico. Rosa Maria foi direta ao afirmar que a comunidade rejeita o modelo convencional dentro da aldeia.

"Nós temos que ter o cuidado justamente para que esse trabalho não seja voltado à escola regular. A presença e a ênfase na língua materna são primordiais. Temos que ter o cuidado para não direcionar apenas para a contratação de professores brancos."

A posição da coordenadora está alinhada com o que prevê a legislação brasileira. A Constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) garantem às comunidades indígenas o direito a uma educação diferenciada, bilíngue e intercultural, com currículos próprios.

Sustentabilidade e desafios logísticos

O exemplo de referência na região vem de São Miguel das Missões, em estágio mais avançado de organização. Lá, a comunidade já produz e comercializa itens da agricultura familiar, como laranjas e hortaliças, para o Programa de Alimentação Escolar do estado. A aldeia Tekoá Ko'enju, em São Miguel das Missões, também recebeu investimentos voltados à produção e comercialização de artesanato para o turismo, num movimento que articula geração de renda e valorização cultural.

Para que esse desenvolvimento se replique na Aldeia da Ressaca da Buriti, no entanto, obstáculos além da sala de aula precisam ser superados. A precariedade das estradas de acesso tem sido um entrave que afeta o transporte de professores, o escoamento da produção e o atendimento de saúde.

Com início das obras previsto para 2026 e execução estimada em 90 dias, a expectativa é que a nova estrutura consolide a escola como um centro de resistência cultural e de desenvolvimento para os povos originários das Missões.

Redação Grupo Sepé


Compartilhe essa notícia: