
O Rio Grande do Sul vive um crescimento recente do turismo religioso, impulsionado por diferentes tipos de atrativos, que vão desde pequenos capitéis à beira de estradas até grandes monumentos contemporâneos. Nesse cenário, a região das Missões se destaca pela combinação entre história, espiritualidade e identidade cultural, reforçando sua vocação natural para atrair visitantes.
Enquanto novas rotas surgem na Serra e estruturas como o Cristo Protetor, em Encantado, ampliam o fluxo turístico, o território missioneiro agrega um diferencial histórico. Com mais de 400 anos desde o estabelecimento das primeiras reduções jesuítico-guaranis, a região preserva vestígios, tradições e práticas que se traduzem em um sincretismo religioso presente no cotidiano local.
A espiritualidade nas Missões resulta da convivência entre diferentes matrizes. A fé guarani ancestral, centrada na principal divindade cultura da pelos indígenas, Nhanderu, se soma ao cristianismo introduzido pelos jesuítas espanhóis e às manifestações afro-brasileiras trazidas por africanos escravizados. A esse conjunto se somam crenças contemporâneas, como o espiritismo, criando um ambiente religioso plural.
Em São Miguel das Missões, onde está o patrimônio mais preservado desse período, manifestações dessa religiosidade permanecem vivas na comunidade. Um dos exemplos é a atuação das benzedeiras, tradição que resiste ao tempo. Entre elas, destaca-se dona Alzira de Oliveira Leite, de 90 anos, que se apresenta como “benzedeira, parteira e curandeira de remédio de erva”. Em sua casa simples, cercada por imagens religiosas e plantas, ela atende visitantes de diferentes lugares. “Tenho poucos estudos, mas para receber as pessoas eu tenho muito respeito”, afirma.
Outro nome ligado à preservação da memória local é o memorialista Valter Braga, também natural do município. Ele coordena o Manancial Missioneiro, espaço que reúne mais de 300 itens históricos e arqueológicos coletados desde os anos 1990. No local, realiza o chamado Ritual da Erva Mate, inspirado em práticas indígenas e associado à sua própria ascendência missioneira. Pelo trabalho, recebeu em 2012 o Prêmio Nacional de Incentivo à Museologia Social, concedido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
No campo do catolicismo, a devoção também movimenta visitantes. Em Caibaté, o Santuário do Caaró relembra a morte dos padres jesuítas Roque Gonzales, Afonso Rodrigues e João Del Castilhos, em 1628. Beatificados em 1934 e canonizados em 1988, os chamados Santos Mártires são homenageados na Capela local, que recebe milhares de romeiros todos os anos. O espaço conta ainda com um bosque e uma fonte de água benta, reforçando o caráter de peregrinação.
Apesar do fluxo constante de visitantes, a exploração econômica do turismo religioso nas Missões tem se intensificado recentemente. A valorização desse potencial começa a impactar diretamente a economia regional, com a geração de renda e o fortalecimento do comércio.
Um exemplo é a loja Divinalis, localizada nos arredores da Catedral Angelopolitana, em Santo Ângelo. Inaugurado em março, o negócio foi criado por Karine Rodrigues Leite e seu marido, com investimento de cerca de R$ 80 mil. A proposta é oferecer souvenirs e artigos religiosos voltados aos visitantes. “A gente percebia que não havia muitas lojas ao redor da praça que oferecessem produtos para os turistas. Então buscamos oferecer presentes com significado e souvenirs da cultura missioneira”, explica.
Segundo ela, a procura tem chamado atenção pelo perfil do público. “Há muitos jovens, de 12, 13 anos, que vêm comprar. Acho que eles estão em busca de algo para ‘fazer parte’ e conhecer. Eles levam lembranças das Missões, mas também itens com significado, como proteção”, observa.
A combinação entre fé, memória histórica e identidade cultural posiciona as Missões como um dos principais polos de turismo religioso do RS, com potencial ainda em expansão tanto no fluxo de visitantes quanto na geração de oportunidades econômicas.
Fonte: Jornal Cidades