
Dois anos se passaram desde que a força das águas transformou o Rio Grande do Sul, destruiu cidades e deixou a marca de 185 mortos. Desde a enchente histórica de 2024, pontes foram erguidas, casas reconstruídas e o cotidiano foi voltando à normalidade. Para 23 famílias, porém, o tempo não avançou, pois seus entes queridos nunca foram encontrados.
Passados mais de 700 dias da tragédia, as buscas físicas por essas pessoas já não acontecem mais, já que não surgiram novos vestígios. A investigação, no entanto, permanece aberta (entenda abaixo).
Sem um corpo para velar ou respostas definitivas, essas famílias convivem com uma ausência incerta, entre a esperança e o luto.
— Os bombeiros vieram com cães farejadores, procuramos por onde ele poderia ter ido, em casarões abandonados, em campos, áreas alagadas, debaixo de pontes. O tempo foi passando e a gente não conseguiu achar nenhuma pista. Ele segue desaparecido — lamentou Cassiane da Silva Ramos, 25 anos.
O irmão dela, William da Silva Ramos, sumiu no município de Agudo, na Região Central. Era o começo da tormenta na cidade quando o ajudante de obras decidiu sair de casa, durante a noite, para buscar um lanche. Depois disso, o jovem, então com 27 anos, nunca mais foi visto.
— A gente não sabe se ele está vivo ou morto. O que restou foi esperar. O tempo vai dizer. Por enquanto, não vou pôr na minha cabeça uma morte que eu não sei se realmente aconteceu — refletiu a familiar, que ainda espera reencontrar o irmão.
A incerteza também marca a rotina do motorista Paulo Everton Fiel, 46. A mãe dele, Diana Alves Meirelles, então com 69 anos, foi arrastada pela água em Cruzeiro do Sul, no Vale do Taquari. A idosa vivia em um sítio e não acreditava na gravidade da enchente.
— Eu liguei para ela quando a água começou a subir e ela falou para eu ficar tranquilo, que a gente ia dar risada disso depois, que não ia acontecer nada — relembra o filho.
Paulo, que estava em Lajeado, soube dias depois que vizinhos do sítio estavam desaparecidos e que a região havia sido praticamente destruída pela cheia. O motorista só conseguiu voltar ao local e reconhecer onde ficava o sítio da família mais de um mês depois da catástrofe.
No local, restou apenas parte do alicerce da moradia e a incerteza do paradeiro de Diana.
— Eu ainda tenho esperança, mas é mínima. É 1% de chance de ela estar viva e 99% de ela estar morta. Pode ser que ela apareça hoje e pode ser que ela não apareça mais — afirmou.
As buscas ativas e ininterruptas a pessoas que sumiram em razão da enchente de 2024, cessaram no dia 28 de fevereiro de 2025, "após as áreas terem sido amplamente exauridas por buscas". Foram realizadas buscas por terra, ar, água, montanhas de entulhos e com cães farejadores.
De acordo com a corporação, as buscas podem ser retomadas apenas se surgirem indícios concretos sobre possíveis locais onde as vítimas possam estar.
"A partir de um certo tempo, onde não temos mais informações novas, e se esgotaram os meios, elas acabam. Podem retornar quando surgem novas informações", informa o Corpo de Bombeiros Militar do RS.
O delegado Mário Souza, diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, esclarece que, apesar do encerramento das buscas físicas no terreno, as investigações da Polícia Civil não foram encerradas.
Segundo ele, há uma diferença entre o trabalho operacional feito pelos bombeiros e o acompanhamento policial dos casos.
— As buscas fisicamente no local, com pessoas cavando, máquinas, cães, não estão acontecendo agora. Mas o caso continua aberto para a Polícia Civil. As buscas enquanto investigação, denúncias que podem chegar, informações, isso continua em aberto, e é constante — esclarece.
De acordo com Souza, a polícia permanece atenta a qualquer informação nova que possa levar ao encontro de alguma das pessoas desaparecidas. Caso surja um indício concreto, as buscas devem ser retomadas.
O delegado reconhece que, com o passar do tempo, as chances de encontrar sobreviventes diminuem significativamente.
— É claro que quanto mais o tempo passa, por óbvio, a chance de a gente encontrar a pessoa com vida fica mais remota — comenta.
A principal hipótese é de que os corpos tenham sido encobertos pelas mudanças no terreno provocadas pela força da enchente. Ainda assim, Souza afirma que a polícia não deve desistir enquanto os casos não forem esclarecidos.
A ausência de corpos e de registros materiais concretos faz com que a situação dessas vítimas permaneça indefinida do ponto de vista legal.
Segundo o delegado Mario Souza, não é possível declarar a morte dessas pessoas sem provas materiais que confirmem o óbito.
— A gente não pode declarar que a pessoa morreu, porque nós não temos provas cabais disso. Existem grandes possibilidades, mas não cabe à área criminal fazer isso — comenta.
Ele destaca que já houve, em outras situações, casos de pessoas inicialmente dadas como desaparecidas que foram localizadas com o passar do tempo. O exemplo mais recente relacionado à enchente ocorreu em agosto de 2025, mais de um ano após a tragédia, quando a Defesa Civil confirmou a identificação de uma vítima.
A confirmação foi possível após a aplicação de protocolos que envolveram o trabalho do Instituto-Geral de Perícias (IGP) e da Polícia Civil, permitindo esclarecer o caso.
Conforme a Defesa Civil, 23 pessoas seguem desaparecidas após a enchente de 2024. Do total, 13 são homens e 10 são mulheres.
O Vale do Taquari, epicentro da tragédia, concentra 65,2% dos casos (15 de 23). Na Serra, são cinco pessoas desaparecidas (21,7%), todas mulheres. As demais ocorrências estão distribuídas entre Região Central, Porto Alegre e Vale do Sinos, com um caso cada (4,3% por região).
Região Central (1)
Serra (5)
Vale do Taquari (15)
Porto Alegre (1)
Vale do Sinos (1)
Fonte: GZH