CULTURA
07/05/2026 às 11:20 por Ricardo Bolson


400 anos das Missões: pesquisador Valter Portalete propõe redescoberta da identidade jesuíta-guarani

400 anos das Missões: pesquisador Valter Portalete propõe redescoberta da identidade jesuíta-guarani

As Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul completaram 400 anos em 3 de maio de 2026. A data remete a 1626, quando o padre Roque Gonzales fundou a redução de São Nicolau, considerada a primeira no atual território gaúcho. O aniversário tem provocado um debate profundo sobre identidade, espiritualidade e a história dos povos originários. Em entrevista ao programa Aldeia Global, da Rádio Sepé, o escritor e pesquisador Valter Portalete, imortal da Academia Santo-angelense de Letras, defende que a história missioneira não deve ser tratada como algo estático, mas como uma construção contínua que exige dedicação e pesquisa para ser compreendida em sua plenitude.

A história além dos livros oficiais

Para Portalete, o momento atual é de "reconexão com o nosso passado", quebrando paradigmas de uma historiografia que por vezes silenciou as contribuições de indígenas e negros. Ele ressalta que o Projeto Missões, gestado desde 2019, deve ser encarado como um projeto de Estado, não apenas de governo, com foco na preservação de uma trajetória que encanta pela cosmovisão da nação que aqui vivia.

As Missões Jesuíticas Guaranis não eram apenas centros religiosos, mas verdadeiras comunidades organizadas, que chegaram a ter uma população de cerca de 40.000 pessoas em seu auge, em 1732. Nas reduções, os povos guaranis viviam em aldeamentos planejados, com igrejas, oficinas, escolas e áreas de produção agrícola, e a economia era baseada no trabalho coletivo.

O pesquisador enfatiza que o entendimento da região passa por reconhecer a existência de uma nação guarani consolidada muito antes da chegada europeia. "O sagrado antes da cruz", título de seu novo livro, busca explorar justamente esse período de silêncio e resistência.

A "guaranização" dos jesuítas

Um dos pontos mais instigantes da análise de Portalete é a inversão da lógica tradicional de colonização. Embora os jesuítas tenham chegado com a missão de cristianizar, o pesquisador argumenta que ocorreu uma simbiose única. Citando o historiador Ariel Castro, ele afirma: "No final das contas, o jesuíta foi guaranizado".

Segundo Portalete, os padres da Companhia de Jesus acabaram abraçando a causa de uma sociedade cooperativa e sem grandes conflitos internos, o que os tornou uma "pedra no sapato" das coroas ibéricas e levou à sua expulsão da América. Essa experiência foi descrita por pensadores como Voltaire como o "triunfo da humanidade", uma organização social ímpar com foco em educação, oficinas e produção coletiva.

A música como ponte para o passado

O despertar de Portalete para a história missioneira não veio apenas dos arquivos, mas também da arte. Ele destaca o papel fundamental da música regionalista, especialmente a obra dos chamados Troncos Missioneiros. Jayme Caetano Braun, Noel Guarany, Cenair Maicá e Pedro Ortaça foram os quatro artistas que emprestaram nome ao disco "Troncos Missioneiros", lançado em 1988, e cujo principal legado está no pioneirismo da construção de uma identidade missioneira por meio da música. As letras enfatizam o passado rural, a fronteira de integração latino-americana e as Reduções Guaraníticas.

Vale lembrar que Portalete tem relação direta com esse universo: publicou o livro "Terra e cidadania na obra de Cenair Maicá", referência biográfica sobre o artista de Tucunduva.

Contextualizando o impacto lírico na preservação da memória, o pesquisador observa: "A música pegou na mão da história e disse: 'Vem que eu vou te ajudar'". Por meio de letras que narram a filosofia e as dores dos povos originários, a música popularizou um sentimento de pertencimento que os documentos formais nem sempre conseguem transmitir.

"Conhece tua Aldeia": o desafio do turismo missioneiro

Além do resgate histórico, Portalete defende que a valorização da identidade é a chave para o sucesso do turismo na região. Ele propõe o projeto "Conhece tua Aldeia", com o argumento de que o morador local precisa ser o primeiro a compreender e respirar a própria história para poder comunicá-la ao visitante.

Diferente de outros destinos, o turismo missioneiro carrega um forte sentido espiritual. Portalete cita regiões como a Serra Gaúcha e o Nordeste brasileiro, onde o nativo conhece e se orgulha de sua história. Para ele, é essencial que a sociedade missioneira recupere a "liga" da cooperação: "É preciso que nós, sociedade, entendamos o processo. Se você não conhece o teu produto, já era".

A programação dos 400 anos, conduzida pela Comissão Oficial sob coordenação da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul, reúne mais de 100 atividades previstas entre fevereiro e dezembro de 2026, incluindo mostras de cinema, concertos, exposições, seminários nacionais e internacionais, além de ações voltadas à educação patrimonial e circuitos turísticos. O quadricentenário não é apenas uma data no calendário. É a oportunidade para que a região olhe com cuidado para sua trajetória singular, unindo passado e presente em busca de uma sociedade mais consciente de suas raízes.

Redação Grupo Sepé


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