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29/05/2026 às 22:00 por Ana Carolina Zago


Entenda por que o Rio Grande do Sul segue sem domínio territorial de PCC e Comando Vermelho

Entenda por que o Rio Grande do Sul segue sem domínio territorial de PCC e Comando Vermelho
Foto: Reprodução/Fantástico

O Rio Grande do Sul se mantém como um dos poucos territórios no Brasil sem controle territorial direto do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), facções que o governo dos Estados Unidos anunciou que vai incluir em sua lista de Organizações Terroristas Estrangeiras.

A medida americana, divulgada nesta quinta-feira (28), entra em vigor em 5 de junho e equipara os grupos brasileiros a organizações como Al-Qaeda, Hamas e Estado Islâmico. A lista, criada pelo governo de Bill Clinton em 1996, visa identificar grupos estrangeiros que realizam atividades terroristas ou representam risco à segurança dos Estados Unidos.

Apesar do alcance internacional que embasa a decisão norte-americana, o PCC e o Comando Vermelho esbarram na organização local gaúcha. Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) apontam que o estado é, ao lado de São Paulo e do Distrito Federal, um dos únicos locais do país onde o CV não possui células dentro do sistema carcerário.

No caso do PCC, a aproximação no estado ocorre apenas por viés comercial e por influência estrutural. Especialistas apontam que uma das facções da Região Metropolitana, originada nas cadeias gaúchas, apresenta semelhanças com a organização paulista no modo de atuação e na capacidade de infiltração em diferentes segmentos formais.

Na prática, o contato ocorre no fornecimento de drogas. Esse negócio logístico teve impactos diretos: em 2016 e 2017, a disputa nacional entre PCC e Comando Vermelho pelo controle do tráfico resultou em um aumento expressivo da violência armada também no estado.

Especialistas de segurança pública indicam que isso ocorre porque o crime organizado no estado desenvolveu um ecossistema próprio muito antes de os grupos do eixo Rio-São Paulo iniciarem a expansão nacional.

"Esses grupos se organizaram antes da expansão nacional do Comando Vermelho e acabaram ocupando o espaço de poder criminal de forma autônoma", explica Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, professor da Escola de Direito da PUCRS e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A primeira facção gaúcha foi originada no antigo Presídio Central de Porto Alegre, que já chegou a ser considerado a pior cadeia do Brasil, logo após um grande motim ocorrido em 1987. Esse grupo pioneiro fragmentou-se ao longo dos anos 1990 e 2000.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registra que o estado chegou a reunir cerca de dez facções diferentes ao mesmo tempo. Essa alta concentração gerou concorrência, e as lideranças criminosas do Rio Grande do Sul criaram um pacto cultural de resistência, não cedendo espaço aos grupos externos.

Em vez de disputarem apenas a capital, as quadrilhas gaúchas se anteciparam e interiorizaram o domínio territorial, ocupando espaços que poderiam atrair facções forasteiras.

O juiz de Direito Sidinei Brzuska, com mais de duas décadas na Vara de Execuções Criminais (VEC) de Porto Alegre, destaca que, nos últimos anos, se intensificou a expansão das facções do estado para o interior.

"Praticamente todas as prisões mais relevantes são dominadas. Pararam de disputar pontos de tráfico aqui [Porto Alegre] e foram dominar cidades que ainda não tinham crime organizado, ampliaram a base territorial. Não ficou vácuo de poder para gente de fora vir aqui ocupar", avalia.

Autor do longa-metragem "Central - O poder das facções no maior presídio do Brasil" e do livro "Falange gaúcha", o jornalista especializado em segurança pública Renato Dornelles cita ainda a identidade cultural.

"A dificuldade do CV em entrar no sistema penitenciário gaúcho tem muito disso. É uma espécie de pacto informal das facções daqui, para nenhuma ceder espaço para facção de fora. Também é uma questão cultural", pontua.

A Secretaria da Segurança Pública do RS considera que o estado é "notabilizado por características socioculturais muito peculiares" e que "está distante do centro do país e de suas principais rotas logísticas".

"Esses dois fatores socioculturais e geopolíticos se somam a ação vigilante e contundente dos órgãos de segurança pública gaúchos", alega a pasta.

Fonte: G1 RS


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