AGRO
11/08/2026 às 16:36 por Patrick Siede


Recuperações judiciais expõem nova fase da crise no agro gaúcho

Recuperações judiciais expõem nova fase da crise no agro gaúcho
Foto: Wenderson Araújo/CNA Agro/Divulgaçãoa/JC

O avanço das recuperações judiciais no agronegócio gaúcho revela uma nova etapa da crise financeira acumulada após sucessivas perdas climáticas. Embora os produtores de soja ainda concentrem a maior parte dos casos no Estado, empresas que financiam, abastecem e recebem a produção já começam a sentir os reflexos do endividamento acumulado nas últimas safras.

O Rio Grande do Sul encerrou o primeiro semestre de 2026 com 194 CNPJs da agropecuária em recuperação judicial, segundo levantamento do Monitor RGF-Bizdoc. O número coloca o Estado praticamente empatado com Mato Grosso, que registra 196 casos, na liderança nacional. Em relação ao fim de 2025, o estoque de recuperações cresceu 22,8% e, em 12 meses, o avanço chegou a 61,7%.

O perfil das recuperações mostra que o epicentro da crise está na produção agrícola. Dos 194 CNPJs em recuperação, 133 estão ligados ao cultivo de soja. Produtores rurais e empresários individuais respondem por 92% dos registros, enquanto micro e pequenas empresas representam 95% do universo analisado — classificação que considera o porte cadastral das empresas e não, necessariamente, o tamanho das propriedades. O quadro indica que a deterioração financeira permanece concentrada na atividade primária, antes de atingir com maior intensidade os demais segmentos do agronegócio.

Para o sócio sênior da RGF Bizdoc e coordenador do Monitor, Claudio Damasceno, o Rio Grande do Sul reúne uma combinação pouco observada em outros Estados. A sucessão de estiagens entre 2020 e 2023, seguida pelas enchentes de maio de 2024, comprometeu a capacidade financeira de muitos produtores antes que houvesse tempo para recompor o caixa.

"O que distingue o Rio Grande do Sul é que o clima se tornou um fator de insolvência", afirma. Segundo Damasceno, a crise permanece concentrada na produção agrícola, especialmente na soja, responsável por 69% dos casos acompanhados no Estado.

O cenário também aparece nas estatísticas de crédito. Levantamento da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), com base em dados do Sistema de Informações de Crédito (SCR) do Banco Central, aponta que o Estado concentrava R$ 39,9 bilhões em carteira de crédito rural estressada em abril deste ano. O indicador reúne operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas e renegociadas e mostra que a pressão financeira vai além da inadimplência tradicional, refletindo o acúmulo de dívidas renegociadas e operações que permanecem sob elevado risco.

Para o especialista em reestruturação empresarial André Estevez, do escritório André Estevez Advogados, os eventos climáticos explicam apenas parte da deterioração financeira. Às perdas de produção somaram-se juros elevados, aumento dos custos e dificuldade de acesso a novas fontes de financiamento. A safra 2025/26 melhorou o fluxo de caixa de muitos produtores, mas não foi suficiente para eliminar o passivo acumulado nos ciclos anteriores.

"Três estiagens seguidas, quebra de safra em um dos anos e a enchente de maio de 2024 consumiram o capital de giro do produtor gaúcho antes de qualquer recomposição", afirma. "A safra atual melhorou o caixa, sem liquidar as parcelas prorrogadas nem devolver as garantias já comprometidas."

Na avaliação do advogado, parte expressiva da renda obtida com a recuperação da produção foi absorvida pelo custeio da nova safra e pelo serviço da dívida acumulada. Com isso, muitos produtores recuperaram liquidez momentânea, mas não a capacidade de reduzir o endividamento construído ao longo dos últimos anos.

"A crise torna-se estrutural quando a empresa precisa financiar a safra seguinte sem ter absorvido o passivo das anteriores", afirma Estevez. Segundo ele, esse desequilíbrio ajuda a explicar por que a melhora da produção não significou o fim das dificuldades financeiras e prepara uma nova etapa da crise, que começa a alcançar empresas responsáveis pelo financiamento, fornecimento de insumos e comercialização da produção.

Retrato da crise no RS

  • 194 CNPJs do agro em recuperação judicial
  • +22,8% no primeiro semestre
  • +61,7% em 12 meses
  • 69% dos casos ligados à soja
  • 92% produtores rurais e empresários individuais
  • 15,4% do total nacional

Fonte: Monitor RGF-Bizdoc


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