
Quase 40% das mulheres assassinadas em 2019 no Rio Grande do Sul foram vítimas de feminicídio, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP). No ano passado, 257 mulheres foram assassinadas no estado. Desse valor, 97 morreram por questão de gênero (37,7%).
Segundo um estudo realizado pelo Observatório da Violência contra a Mulher da SSP, 53 suspeitos dos casos de feminicídio do ano passado foram indiciados pela Polícia Civil. Outros 19 cometeram suicídio após matarem as vítimas.
Um caso desse tipo aconteceu em setembro, em Cachoeirinha, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Um casal foi encontrado morto na própria cama. A perícia apontou que o homem atirou na mulher e cometeu suicídio. O casal ficou junto durante 25 anos. Na época do crime, eles estavam em processo de separação.
A promotora de Justiça Ivana Machado Battaglin, da Promotoria de Justiça Especializada de Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, fala sobre a "masculinidade tóxica" e como muitos homens não sabem conviver com a rejeição.
"Sobe cada vez mais o número de feminicídios no país, ou seja, tem algo muito errado nessa discussão, e é por isso que é tão importante e eu sou uma grande defensora da implementação dos grupos reflexivos de gênero. Para que os homens possam serem incitados a discutir essa sua masculinidade, essa masculinidade tóxica, que faz tão mal a eles, que mata as mulheres."
"Nós temos que ter as estruturas de estado para isso. Estrutura de estado seria em cada comarca, em cada cidade, termos assistente social, psicólogos, ou seja, pessoas aptas a lidar com esses agressores", acrescenta.
Segundo a chefe da Polícia Civil do RS, delegada Nadine Anflor, é importante que as mulheres denunciem os casos de violência e que os familiares prestem apoio às vítimas.
"A maior parte das mulheres morrerem nas residências, é importante que haja o engajamento cada vez mais dos familiares, e da sociedade como um todo, que tenham esse olhar, essa empatia. Para fazer com que essa mulher se sinta protegida, não apenas pelos órgãos de segurança. Até porque muitos casos aconteceram em áreas rurais, que é de difícil acesso à polícia", afirma a delagada.
O objetivo é utilizar as informações obtidas com a pesquisa em medidas para combater a violência contra a mulher.
"Percebemos com a pesquisa que o perfil é muito semelhante, tanto do agressor quanto da mulher, em questão de escolaridade, renda média, tudo muito semelhante. Com esse perfil, a gente vai fazer uma transversalidade com outras secretarias", acrescenta a delegada.
Dados mostram que 96% das vítimas de feminicídio em 2019 no RS não tinham medidas protetivas de urgência. A promotora conta que muitas mulheres não denunciam por medo e vergonha. Por isso, ela salienta a importância do apoio familiar. "Geralmente, as que morrem são as que não tiveram coragem de pedir [ajuda]. Então, assim, aos familiares, aos amigos, a quem sabe do que está acontecendo, não virem as costas para essas mulheres. Estejam sempre abertos. As mulheres não denunciam, não pedem socorro, não vão à delegacia por inúmeros motivos. Elas têm muito medo, é uma pressão psicológica."
Ivana cita o ciclo da violência e como é complicado a mulher vítima de agressão sair desse contexto.
"Há aqueles momentos que ele [agressor] se torna uma pessoa boa, pede perdão e são relações marcadas pelo afeto. Então, toda vez que a gente tiver vontade de julgar uma vítima 'ah, mas porque ela fica?' temos que lembrar que são relações marcadas pelo afeto. Temos que pensar nisso quando a gente pensa em vítimas presas em relacionamentos. E de onde tem os afetos mais fortes, vem o sofrimento mais intenso", afirma.
A promotora acrescenta que é um fenômeno complexo, por isso todo apoio é necessário. "Junto vem a vergonha, vem o medo de ser criticada, de ser julgada, o medo do próprio agressor, a manipulação perversa que eles fazem se mostrando ora muito bom, muito carinhoso, ora perverso. A família e os amigos tem que estar sempre à disposição para que no momento em que ela tiver coragem de sair, a família estar pronta para auxiliá-la, levá-la até a delegacia de polícia e pedir a medida protetiva. Porque nós do sistema de Justiça estaremos aqui para ampará-la."
Fonte: G1 RS